O Luto no Rompimento de Um Relacionamento Abusivo
Nas postagens anteriores, vimos que o luto está inserido na nossa vida em diversas situações e não somente relacionado a morte. Diante desse conhecimento estamos preparados para entender que o luto está presente também nos términos de relacionamento e, acredite, inclusive nos abusivos. Você deve estar se perguntando agora como pode haver luto no fim de uma relação doentia, que, obviamente, não faz bem para o parceiro oprimido? Pois bem, preste atenção nas próximas linhas que tudo vai começar a fazer sentido.
Passando os olhos, primeiramente, no término de um relacionamento
saudável, podemos ver que o luto existe tanto para quem decide pela ruptura quanto
para aquele que não decidiu por este final. Neste caso temos a dor do
encerramento, sentidas de maneiras diferentes pelas partes envolvidas, inerentes
a tristeza e a dificuldade de aceitar o final de uma vida construída com muitos
momentos felizes, mas que se findou para um deles. De um lado temos o parceiro
que decidiu, mas que sente a dor da perda, pois há uma história que deu certo enquanto
durou, além do lamento por saber que irá fazer o outro sofrer, e esta, talvez,
seja uma das suas maiores dores nesse processo de luto. Do outro, temos o que
sofre pela decisão do parceiro, pela dor de encarar um fim que não queria, por
ter que conviver com uma nova realidade.
Voltando ao relacionamento abusivo, quando o parceiro oprimido enxerga
a relação vivida como tóxica e consegue se “libertar”, ainda sim, é possível
que ele viva o luto, mesmo tendo certeza da sua decisão. Vamos entender como
isso funciona: é preciso compreender que um relacionamento abusivo não está necessariamente
relacionado apenas com agressões físicas. Ele pode ser caracterizado com abusos
psicológicos e morais. O parceiro abusador é manipulador e tende a querer
controlar a vida do companheiro na forma de se vestir, nas suas amizades, sobre
suas atitudes e fazendo até com que acredite que nunca encontrará uma pessoa
como ela. Tudo começa de forma sutil e vai aumentando gradualmente e por isso
quem sofre o abuso não percebe o tipo de relação que está envolvida e, por
vezes, se convence que os excessos do parceiro é a forma que ele tem de cuidar.
Quando, finalmente, se enxerga nesse ambiente, o parceiro abusado muitas vezes
não consegue sair dessa relação. Muitas coisas influenciam: medo, receio de se
arrepender, dependência financeira, filhos entre outras situações que podem fazer
com que postergue ou não tome uma decisão. No entanto, uma vez que copo d’água
transborda e a coragem para dar fim a essa relação se estabelece, o indivíduo
que sofre abuso coloca em prática a sua decisão e se “liberta”. E é aí que pode
começar a instalação do luto. Mas como assim? A primeira sensação é a de
liberdade, o alívio de ter conseguido dar fim ao que tanto fazia mal. Sua vida
pode ser recomeçada e finalmente encerrar um ciclo, virar a página. No entanto,
no decorrer das semanas, ou meses, um sentimento conflituoso pode começar a vir
à tona: a falta de um alguém com quem dividia a sua vida, com quem dividia uma
rotina. Não existe mais esse sujeito para compartilhar o dia. Agora o indivíduo
está sozinho, recomeçando uma nova etapa, dependendo só dele mesmo para se
manter financeiramente e emocionalmente. Falta uma pessoa ao lado quando
estiver doente, quando estiver triste, fazendo companhia em um passeio ou nas
datas comemorativas. E veja bem, o luto aqui não se refere a alguém que se
deixou para trás, até porque o antigo parceiro poderia não fazer nenhuma
diferença nessas situações. A dor aqui está atrelada a ausência de uma figura
representativa. O sujeito não sente falta de quem se foi, mas do que acredita
que perdeu. O enlutamento, portanto, se deve ao fato do indivíduo sentir falta
de uma composição, de uma estrutura relacional, (ainda que na prática ela não
existisse), e seu processo de elaboração do luto vai estar voltado para a adaptação
de sua nova realidade: deixar de sentir que precisa de alguém para estar
consigo mesmo.

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