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Vamos falar sobre luto? Parte V



O Luto no Rompimento de Um Relacionamento Abusivo

Nas postagens anteriores, vimos que o luto está inserido na nossa vida em diversas situações e não somente relacionado a morte. Diante desse conhecimento estamos preparados para entender que o luto está presente também nos términos de relacionamento e, acredite, inclusive nos abusivos. Você deve estar se perguntando agora como pode haver luto no fim de uma relação doentia, que, obviamente, não faz bem para o parceiro oprimido? Pois bem, preste atenção nas próximas linhas que tudo vai começar a fazer sentido.

Passando os olhos, primeiramente, no término de um relacionamento saudável, podemos ver que o luto existe tanto para quem decide pela ruptura quanto para aquele que não decidiu por este final. Neste caso temos a dor do encerramento, sentidas de maneiras diferentes pelas partes envolvidas, inerentes a tristeza e a dificuldade de aceitar o final de uma vida construída com muitos momentos felizes, mas que se findou para um deles. De um lado temos o parceiro que decidiu, mas que sente a dor da perda, pois há uma história que deu certo enquanto durou, além do lamento por saber que irá fazer o outro sofrer, e esta, talvez, seja uma das suas maiores dores nesse processo de luto. Do outro, temos o que sofre pela decisão do parceiro, pela dor de encarar um fim que não queria, por ter que conviver com uma nova realidade.

Voltando ao relacionamento abusivo, quando o parceiro oprimido enxerga a relação vivida como tóxica e consegue se “libertar”, ainda sim, é possível que ele viva o luto, mesmo tendo certeza da sua decisão. Vamos entender como isso funciona: é preciso compreender que um relacionamento abusivo não está necessariamente relacionado apenas com agressões físicas. Ele pode ser caracterizado com abusos psicológicos e morais. O parceiro abusador é manipulador e tende a querer controlar a vida do companheiro na forma de se vestir, nas suas amizades, sobre suas atitudes e fazendo até com que acredite que nunca encontrará uma pessoa como ela. Tudo começa de forma sutil e vai aumentando gradualmente e por isso quem sofre o abuso não percebe o tipo de relação que está envolvida e, por vezes, se convence que os excessos do parceiro é a forma que ele tem de cuidar. Quando, finalmente, se enxerga nesse ambiente, o parceiro abusado muitas vezes não consegue sair dessa relação. Muitas coisas influenciam: medo, receio de se arrepender, dependência financeira, filhos entre outras situações que podem fazer com que postergue ou não tome uma decisão. No entanto, uma vez que copo d’água transborda e a coragem para dar fim a essa relação se estabelece, o indivíduo que sofre abuso coloca em prática a sua decisão e se “liberta”. E é aí que pode começar a instalação do luto. Mas como assim? A primeira sensação é a de liberdade, o alívio de ter conseguido dar fim ao que tanto fazia mal. Sua vida pode ser recomeçada e finalmente encerrar um ciclo, virar a página. No entanto, no decorrer das semanas, ou meses, um sentimento conflituoso pode começar a vir à tona: a falta de um alguém com quem dividia a sua vida, com quem dividia uma rotina. Não existe mais esse sujeito para compartilhar o dia. Agora o indivíduo está sozinho, recomeçando uma nova etapa, dependendo só dele mesmo para se manter financeiramente e emocionalmente. Falta uma pessoa ao lado quando estiver doente, quando estiver triste, fazendo companhia em um passeio ou nas datas comemorativas. E veja bem, o luto aqui não se refere a alguém que se deixou para trás, até porque o antigo parceiro poderia não fazer nenhuma diferença nessas situações. A dor aqui está atrelada a ausência de uma figura representativa. O sujeito não sente falta de quem se foi, mas do que acredita que perdeu. O enlutamento, portanto, se deve ao fato do indivíduo sentir falta de uma composição, de uma estrutura relacional, (ainda que na prática ela não existisse), e seu processo de elaboração do luto vai estar voltado para a adaptação de sua nova realidade: deixar de sentir que precisa de alguém para estar consigo mesmo.


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