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A Psicologia Por Trás de: Dark

Em dezembro de 2017 estreou na Netflix a mais nova série queridinha do momento: Dark




E não é para menos. Uma das melhores séries de suspense dos últimos tempos, com uma fotografia muito impressionante e um roteiro de explodir cabeças. Inicialmente pode parecer uma história confusa, mas conforme os episódios vão revelando alguns dos segredos da trama, começamos a nos envolver com os personagens e ficamos cada vez mais curiosos para descobrir o que está acontecendo. Além disso, ao final da temporada temos o prazer de bolar teorias para tentar desvendar os mistérios que ficaram em aberto para a segunda temporada.

Muitas pessoas já falaram sobre essas teorias e explicaram um pouco a série, portanto neste blog não vamos retomar esses temas. Deixo aqui alguns links de ótimos vídeos que fazem isso, como este da Carol Moreira Entendendo Dark em ordem cronológica ou ainda, este do canal Série Maníacos Dark - Entendendo a série e final explicado.

O que nós vamos analisar aqui é a relação de Dark com alguns conceitos muito importantes na Psicologia. Vamos começar pela linda abertura, que faz referência ao teste de Rorschach. No cinema e na TV este teste é quase sempre associado à figura do Psicólogo. Quem nunca viu em uma série, novela ou filme a cena do profissional em seu consultório mostrando algumas plaquinhas manchadas de tintas para o paciente e fazendo a famosa pergunta "O que você vê aqui"? Aquele é o Rorschach.


Idealizado por Hermann Rorschach em 1921, tem como objetivo oferecer informações sobre a estrutura da personalidade do sujeito, através do método projetivo. Isso significa que, ao ser exposto aos estímulos das manchas que estão em cada uma das pranchas, o paciente projeta sua subjetividade, revelando conteúdos muitas vezes inconscientes, dando significado para o que está vendo. Por isso os resultados são ilimitados, um indivíduo pode dar respostas totalmente diferentes de outro quando olha a mesma prancha. Após a aplicação do teste, o Psicólogo faz uma interpretação das respostas obtidas e as classifica dentro dos tipos de personalidade estabelecidos no manual.

A abertura de Dark (que você pode ver clicando aqui) nos revela cenas da própria série, que a princípio não possuem nenhum significado. Mas conforme vamos vendo os episódios e clareando as nossas dúvidas, vamos sendo capazes de identificar o que as imagens querem dizer. Já nos dá um medidor do clima da série, dizendo que nem tudo o que parece é.

Passamos agora ao tema central do roteiro que é a viagem no tempo. Elementos como mitologia grega, o princípio de causa e efeito e o buraco de minhoca de Albert Einstein e Narhan Rosen são usados para criar este universo. Porém, nas minhas pesquisas sobre a série me deparei com o conceito do Eterno Retorno, do filósofo Friedrich Nietzsche, que é bem interessante para a nossa discussão. O texto diz o seguinte:

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!“ Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?” 

O que Nietzsche levanta aqui é a seguinte questão: se você fosse condenado a viver sua vida de maneira cíclica, revivendo cada acontecimento da mesma forma e na mesma ordem em que eles aconteceram, você aceitaria esta condenação? Seria uma bênção ou uma maldição viver uma vida sem surpresas? Será que aqueles que colecionam desgraças em seu passado recusariam esta proposta? E o que dizer daqueles que possuem mais glórias que derrotas, iriam preferir reviver para sempre seus bons momentos ou arriscariam a incerteza de novas experiências? Este pensamento nos traz uma nova perspectiva, uma mudança de eixo. E se tudo, absolutamente tudo, retornasse eternamente?

Neste texto o filósofo nos coloca diante de um número limitado de fatos ao longo da história da humanidade, fatos estes que ocorreram no passado, ocorrem no presente e se repetirão no futuro, tanto na esfera do macro como guerras e epidemias, quanto na esfera do indivíduo e seus acontecimentos pessoais. Este pensamento tira do ambiente sobrenatural a responsabilidade de guiar nossas vidas. Neste contexto coisas como o acaso, o destino, a predestinação ou até mesmo as vontades divinas já não fazem sentido e nos tornamos infinitamente responsáveis pelas nossas escolhas. Se estamos obrigados a viver a mesma situação diversas vezes, devemos sempre buscar fazer o melhor no presente para que, quando passarmos por este momento novamente, possamos ter uma nova experiência agradável.

Podemos ver isto na série em diversos momentos, um dos mais marcantes é quando descobrimos que não só o passado influencia o futuro como também o futuro pode influenciar o passado. A linha temporal faz justamente este movimento cíclico, onde passado presente e futuro acontecem paralelamente e se influenciam mutuamente.


Pensando nisso, podemos fazer uma analogia ao conceito repetição, elaborado por Freud em alguns de seus textos e tão importante para a clínica psicanalítica. Ainda quando trabalhava com Breuer, utilizando o método catártico e a técnica da hipnose, Freud levava seus pacientes a lembrar da situação que dera origem aos seus sintomas, ou dos momentos anteriores à instalação da doença, com a finalidade de direcionar para a consciência os processos mentais envolvidos naquela ocasião. Ou seja, eles recordavam aquele evento e o descreviam para o analista. Porém, nossa memória é falha e nem sempre nos lembramos com clareza dos detalhes de um evento, ainda mais se houve um trauma envolvido.

Com o estabelecimento da técnica da associação livre, Freud passou a interpretar a fala do paciente dando também atenção para aquilo que não era lembrado. Ou seja, ele não estava mais preocupado em focar em um momento específico do passado, agora seu interesse era direcionado para o que o sujeito dizia durante a sessão, interpretando este discurso e pontuando as resistências que ali apareciam. Assim o paciente conseguia preencher o que lhe faltava na memória, relacionando com situações que antes estavam esquecidas.

Logo Freud percebeu que nem todas as pessoas reagiam à técnica da mesma maneira. Alguns, ao invés de recordar o material esquecido, os expressava através de atos. Eles repetiam a mesma ação, de maneira inconsciente, sem saber que o estavam repetindo. E isso acontecia não somente durante as sessões, mas também em seus relacionamentos e no dia-a-dia. Quando isso acontece podemos dizer que a neurose primitiva é substituída pela neurose de transferência.

Em Dark a repetição de atos aparece de duas maneiras: 1) quando os personagens tentam mudar o curso da história mas acabam por repetir seus atos sempre da mesma maneira, que é o caso do Jonas e 2) acontece um fenômeno na série que é a repetição de comportamento através das gerações da família. Observamos comportamentos problemáticos se repetirem, por exemplo, entre pai e filho como os personagens Tronte e Ulrich


Voltando a Freud, encontramos também em seus textos a importância da repetição na resistência do paciente durante o tratamento. Conforme a análise avança e alcança pontos mais sensíveis para o indivíduo este resiste, e é esta resistência que comanda que material será repetido e atuado. É uma maneira que ele encontra para se defender e não precisar elaborar aquilo que lhe incomoda.    
  
"podemos dizer que as resistências do paciente originam-se do ego, e então imediatamente perceberemos que a compulsão à repetição deve ser atribuída ao reprimido inconsciente." (Freud, Obras Completas, v. 18, p.13)

Apesar de a prática psicanalítica dever muito ao fenômeno da repetição, este não é o seu objetivo, porém é sobre a repetição que o trabalho analítico se debruça.  
   
Para saber mais sobre o tema, recomendo os textos de Freud Recordar, Repetir e Elaborar e Além do Princípio do Prazer.

Gostou do texto? Ficou com alguma dúvida? Deixe aqui nos comentários e vamos debater o assunto.

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