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A Psicologia Por Trás das Canções de O Teatro Mágico

Compor uma música é algo que conecta o sujeito com o seu inconsciente, muitas vezes tocando no seu vazio, se defrontando com sua infinitude. O sujeito que compõe fala de dor e de amor que nem sempre se conhece, mas certamente se sente de maneira intensa. Porém, se no momento da composição o sujeito se conecta com algo que vai muito além da sua consciência, como a mesma música pode tocar milhares de pessoas diferentes? 
Para a psicanálise, o sujeito se constitui a partir do Outro, da sua linguagem, da sua voz e de seu amor. Portanto, a música é capaz de se ligar aos conteúdos inconscientes reconstruindo uma história que por hora estava esquecida. 
Pensando nisso, proponho uma análise de algumas canções dos dois primeiros álbuns do grupo O Teatro Mágico: Entrada para Raros (2003) e Segundo Ato (2008).



 O grupo foi criado em 2003 por Fernando Anitelli, na cidade de Osasco, em São Paulo.  A ideia nasceu enquanto o músico lia o livro “O Lobo da Estepe” do escritor alemão Hermann Hesse, uma narrativa que data de 1927. Nele conhecemos a história do protagonista Harry Haller, um homem na casa dos 50 anos, que traz como questão um mal-estar pela sua inadequação à sociedade na questão de valores. Ele aluga um quarto mobiliado na casa de uma senhora e passa a viver ali, isolado. Quando sai à rua, os acontecimentos se passam como que fizessem parte de uma alucinação, como se Harry estivesse vivendo em um mundo imaginário. Em certo momento encontra um teatro mágico “só para raros, só para loucos” que abre a sua mente para a percepção do seu inconsciente, trazendo um autoconhecimento. O personagem se sente atraído pelas múltiplas personalidades dentro de si. Em entrevista, Fernando Anitelli fala um pouco sobre este momento:

“[...] justamente quando eu estava lendo esse livro me deparei com aquele momento em que o personagem se depara com aquela placa “hoje a noite teatro mágico entrada para raros”. Ele acredita que aquilo não é para ele, ele quer ir embora, quando olha “só para raros, só para loucos”, mas ele entra e ali se descobre plural, o personagem descobre a própria pluralidade. Isso é fabuloso porque a gente é assim. Diariamente nós não somos somente um em um milhão, somos um milhão em um. As maneiras como a gente resolve reagir às coisas do cotidiano são muito distintas, então é buscar esse melhor personagem que vive em nós.  E o palhaço traduz isso. Então juntei essa ideia do Lobo da Estepe, essa inspiração – porque a ideia não é traduzir o livro de maneira alguma, ele serviu como inspiração.  Eu peguei isso aí, misturei a ideia do sarau, que é aquela variedade de timbres, de cores, misturei tudo numa coisa só e a gente foi aprendendo a montar, a fazer isso aí esse tempo todo.”



Seguindo essa ideia de pluralidade, Anitelli nos dá uma pista do conceito visual de como o grupo se apresenta. Em suas performances O Teatro Mágico potencializa o poder da palavra cantada através da sua poesia em forma de música. Além da dança, dos números circenses, mistura arte, música e poesia em uma estética única. Dessa forma, o grupo caracteriza-se como produtor de uma arte multimídia, uma mescla de várias linguagens artístico-culturais.
Em suas canções o grupo não costuma abordar os temas convencionais da cultura da música pop. Muitas vezes trazem mensagem repletas de críticas sociais, buscando um posicionamento em relação ao mundo; outras vezes buscam passar mensagens positivas e construtivas; desta forma o cotidiano é tratado em amor e humor.



Seu primeiro álbum, Entrada para Raros, que teve seu título também inspirado pela obra de Hesse, traz composições que falam sobre o amor cotidiano, fazendo um jogo de palavras na canção “Pratododia”, brincado com as expressões “prato do dia” e “pra todo dia”, ou falando sobre saudade e das coisas que aprendemos com a música “O Anjo Mais Velho”, música dedicada ao irmão de Fernando Anitelli que faleceu enquanto morava fora do país. 
Porém, deste álbum quero destacar a música “Zazulejo” que traz uma crítica ao abordar o preconceito enfrentado pelas pessoas simples, que não usam o português padrão e tentam acompanhar as grandes mudanças da vida moderna e pós-moderna. 

Zaluzejo - link para assistir Zaluzejo - You Tube
O Teatro Mágico – Fernando Anitelli

"Ah eu tenho fé em Deus... né?
Tudo que eu peço ele me ouci... né?
Ai quan`o eu to com algum probrema eu digo:
Meu Deus! me ajuda que eu to com esse probrema!
Ai eu peço muito a Deus... ai eu fecho meus olhos... né?
eu Deus me ouci na hora que eu peço pra ele, né?
Eu desejo ir embora um dia pra Recife
não vou porque tenho medo de avião, de torro...de torroristo
ai eu tenho medo né?
Corra tudo bem... se Deus quiser... se deus quiser..."

Pigilógico, tauba, cera lítica, sucritcho,
graxite, vrido, zaluzejo
"eu sou uma pessoa muito divertida"

Pigilógico, tauba, cera lítica, sucritcho,
graxite, vrido, zaluzejo
"não sei falar direito"

Pigilógico, tauba, cera lítica, sucritcho,
graxite, vrido, zaluzejo
"não sei falar"

Tomar banho depois que passar roupa mata
Olhar no espelho depois que almoça entorta a boca
E o rádio diz que vai cair avião do céu
Senhora descasada namorando firme pra poder casar de véu

Quando for fazer compras no Gadefour:
Omovedor ajactu, sucritcho, leite dilatado, leite intregal,
Pra chegar na bioténica, rua de parelepídico
Pra ligar da doroviária, telefone cedular

Quando fizer calor e quiser ir pra praia de Cararatatuba,]
[cuidado com o carejangrejo
Tem que ta esbeldi, não pode comer pitz, pra tirar mal hálito]
[toma água do chuveiro
No salão de noite, tem coisa que não sei
Mulé com mulé é lésba e homi com homi é gay
Mas dizem que quem beija os dois é bixcional...]
[só não pode falar nada,
quando é baile de carnaval

Pra não ficar prenha e ficar passando mal, copo d'água]
[e pílula de ontemproccional
Homem gosta de mulher que tem fogo o dia inteiro,
cheiro no cangote, creme rinsa no cabelo
Pra segurar namorado morrendo de amor
escreve o nome num pepino e guarda no refrigelador,
na novela das otcho, Torre de papel,
Menina que não é virgem, eu vejo casar de véu

Se você se assustar e tiver chilique, cuidado pra não morrer]
[de palaladi cadique
Tenho medo da geladeira, onde a gente guarda yogurte,
porque no fio da tomada se cair água pode dá cicrutche
To comprando um apartamento e o negócio ta quase no fim
O que na verdade preocupa é o preço do condostim
O sinico lá do prédio, certa vez outro dia me disse:
Que o mundo vai se acaba no ano 2000 é o que diz o acalipse

Tenho medo de tudo que vejo e aparece na televisão
Os preju do Carajundu fugiram em buraco cavado no chão
Tesorista, assassino e bandido, gente que já trouxe muita dor
O que na verdade preocupa é a fuga do seucrostador
Seucrosta quem não tem dinheiro, quem não tem emprego]
[ e não tem condução
Documento eu levo na proxeca porque é perigoso carregar na mão

Mas quando alguém te disser ta errado ou errada
Que não vai S na cebola e não vai S em feliz
Que o X pode ter som de Z e o CH pode ter som de X
Acredito que errado é aquele que fala correto e não vive o que diz

"e eu sou uma pessoa muito divertida...
eles não inventavam nada... eu gostava de inventar as coisa
não sei falar direito...
inventar uma piada, inventar uma palavra, inventa uma brincadeira...
não sei falar
me dá um golinho... me dá um golinho..."

Essa canção permite a discussão sobre linguagem e construção da identidade.  O sujeito se constitui através da linguagem. A teoria da linguística de Saussure representa significante e significado como uma relação consciente de quem fala. Obviamente Lacan rejeita o viés consciente desta teoria e o significante passa a ter a maior importância. Com isso o significante passa a ser medido por comparação aos demais elementos de sua cadeia. Um significante só tem função psíquica quando atrelado a uma cadeia de significantes, que vai “puxando” outro significado, formando uma cadeia infinita. Então cada significante pode fazer referência a vários significados. Cadeia esta que não acompanha os mesmos significados lógicos que já são conhecidos e estudados na gramática, por exemplo e podendo até mesmo criar uma palavra que não existe no dicionário. E por significante podemos entender qualquer coisa que comunique algo para alguém. Além da palavra, o significante pode ser um gesto, um objeto ou até mesmo um elemento do corpo.
Por ser construído a partir do recalque originário, o inconsciente está inserido na linguagem. Quando a criança nasce, e até mesmo antes de seu nascimento, ela já está submetida a diversos significantes que a definem, antes mesmo dela própria ter uma noção sobre si mesma. O inconsciente é o reflexo do discurso do Outro, da sociedade e ambiente ao qual estamos inseridos. Por isso, as manifestações do inconsciente podem ser interpretadas através da linguagem.



O segundo álbum, intitulado Segundo Ato, é uma continuação do primeiro, porém mais elaborado. Traz temas como a mecanização do trabalho em “Mérito e Monstro”, o signo indígena e sertanejo em “Abaçaiado” e a problemática de quem vive à margem da sociedade em “Cidadão de Papelão”.

Cidadão de Papelão - link para assistir Cidadão de Papelão - You Tube
O Teatro Mágico - Fernando Anitelli/Maíra Viana

O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, nem voz
Nem terno, nem tampouco ternura
À margem de toda rua, sem identificação, sei não
Um homem de pedra, de pó, de pé no chão
De pé na cova, sem vocação, sem convicção

À margem de toda candura
À margem de toda candura
À margem de toda candura

Um cara, um papo, um sopapo, um papelão

Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura
Cria a dor, cria e atura

O cara que catava papelão pediu
Um pingado quente, em maus lençóis, à sós
Nem farda, nem tampouco fartura
Sem papel, sem assinatura
Se reciclando vai, se vai

À margem de toda candura
À margem de toda candura
À margem de toda candura

Homem de pedra, de pó, de pé no chão

Não habita, se habitua
Não habita, se habitua
Não habita, se habitua
Não habita, se habitua

Aqui é descrito um homem que vive à margem, um cara que representa o outro, representa o que é estranho. Porém, segundo Freud, o estranho só é estranho porque nos é familiar. No texto intitulado “O Estranho” (Unheimlich), Freud define este termo como “algo reprimido que retorna” pela via da repetição. Diante daquilo que retorna podemos encontrar uma explicação para o que é estranho. Porém, ao mesmo tempo que se repete, ele se apresenta como diferente.
A repetição a qual Freud se refere neste texto fala daquilo que deveria ter permanecido oculto, já que seu retorno é involuntário e indesejado. Quando nos deparamos com uma pessoa como a descrita na música, que está à margem, desamparada, nos confrontamos com o nosso próprio desamparo e este retorno a uma questão tão primitiva nos causa estranheza.

O motivo da escolha do grupo O Teatro Mágico foi pela riqueza literária e cultural que compõem os seus álbuns e por sua criatividade, já que eles falam sobre temas diversos da cultura. Penso que suas composições retomam discursos psicanalíticos existentes tanto na manutenção dos sentidos, quanto para denotar posições contrárias. A retomada desses discursos agrega valor, ora irônico, ora conotativo ou ainda de reforço de sentido.


Para maior aprofundamento dos temas citados, sugiro os seguintes textos:


  • Freud - Além do princípio do prazer (1920)
  • Freud - “O Estranho” (1919)
  • Lacan - O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise. (1964) 
  • Lacan - Função e Campo da Fala e da Linguagem (1953)

           Os trechos de entrevistas foram retirados das fontes abaixo:

Obs: Este texto faz é parte de uma produção elaborada para a minha Pós-graduação em Psicanálise, para a disciplina Arte e Psicanálise.


Gostou do texto? Ficou com alguma dúvida? Deixe aqui nos comentários e vamos debater o assunto.


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