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A Psicologia por Trás de O Poço


Recentemente estreou na Netflix o filme espanhol “O Poço" e em pouco tempo já se tornou um dos mais bem avaliados da plataforma. Este sucesso instantâneo se deu por vários motivos: as incríveis atuações, as ótimas escolhas de direção e fotografia e, principalmente, a história de tirar o fôlego.

Para quem ainda não assistiu, “O Poço “ conta a saga de Goreng, um homem que, afim de se livrar de seu vício de fumar, decide voluntariamente passar 6 meses preso neste local onde ele afirma que ao final deste período irá ganhar um certificado. Porém esta não é uma prisão comum. O Poço é uma prisão vertical que abriga duas pessoas por nível. Estas pessoas são alimentadas através de uma plataforma comum a todos, que desce por todos os andares uma vez por dia, permanecendo apenas alguns minutos em cada um deles. O banquete é feito no nível zero, proporcionando que os detentos do nível 1 tenham acesso a uma refeição intacta. Quem está no nível abaixo vai comendo os restos que foram deixados pelos de cima.

O nosso protagonista inicia a sua jornada na plataforma 48 que, segundo o seu colega de cela, é um lugar bom. Mas, ao fazer uma conta rápida ele percebe que 94 pessoas já tocaram naquelas comidas (já que existem 47 níveis acima, cada um com duas pessoas). O grande lance é que cada dupla permanece em cada nível por um mês e após este período eles acordam em um outro andar. Porém eles nunca sabem se estarão mais acima ou mais abaixo na plataforma.  Ou seja, em um mês você pode estar no topo com uma fartura de comida sua disposição e no outro pode estar em níveis mais profundos, onde os alimentos não chegam mais.


O filme traz uma clara crítica a estrutura socioeconômica do sistema capitalista e a divisão das riquezas em nossa sociedade, mas analisando um pouco mais observamos outros temas ali colocados como incentivo à cultura do consumo; críticas a governos que aparentemente prestam um serviço de qualidade mas não acessível a todos; e até mesmo comparações com símbolos religiosos. Mas o que eu quero destacar neste artigo é a questão das relações e como a imposição de um sistema nos tira a nossa subjetividade.

Ao longo da história Goreng é acomodado em andares tanto muito profundos como alguns mais privilegiados e logo ele percebe que, se cada um comesse apenas aquilo que necessita, os alimentos chegariam a todos. Porém, a maioria dos detentos não conseguem fazer este exercício de empatia para com o próximo. Naquela situação existe o predomínio do que Freud inicialmente chamou de pulsão de autoconservação, através do instinto de comer descaradamente pela incerteza do amanhã. Para eles esta atitude é justificável, já que no próximo mês não se sabe onde vai estar.

O conceito de empatia é um tanto quanto controverso em psicanálise.  A verdade é que Freud tomou certos cuidados com este termo pois na prática clínica é preciso que o analista mantenha uma escuta neutra. Desta forma evitamos que os conteúdos inconscientes deste se confundam com os do paciente, trazendo prejuízos para a análise. Mas ela é importante para as relações em um contexto social.
Em Psicologia das Massas e Análise do Eu, texto de 1921, o autor coloca empatia como “compreensão daquilo que em outras pessoas é alheio ao nosso Eu". No filme, os personagens perdem esta capacidade de identificação pois, quando estão nos andares mais altos, não se importam com o que vai chegar para os que estão lá embaixo. Por mais que já tenham estado naquele lugar, continuam comendo exageradamente  e ainda depreciam a comida que vai para o próximo ao, por exemplo, cuspir na plataforma enquanto ela desce. Inclusive, a justificativa para que o personagem (Trimagasi) tenha essa atitude é que ele acredita que, provavelmente, os andares acima tenham agido da mesma forma.

Então porque ele reproduz a mesma atitude, mesmo sabendo que não é correta?
A teoria de Freud é que o indivíduo é influenciado pela massa quando está inserido nela e esta influência resulta em uma alteração de sua capacidade psíquica. Com o objetivo de equiparar todos os seus componentes, os indivíduos diminuem suas capacidades intelectuais e exacerbam seus afetos (tanto o amor quanto o ódio). Isso porque os objetivos das massas se sobrepõem às pulsões individuais e as reprime.

Segundo o autor:
“Se olharmos como um todo, a massa revela o enfraquecimento da aptidão intelectual,  a desinibição da afetividade, a incapacidade de moderação e adiamento, a tendência a ultrapassar todas as barreiras na expressão de sentimentos e a descarregá-los inteiramente na ação – esses e outros traços semelhantes, que Le Bon descreveu de modo tão convincente, fornecem um quadro inequívoco de regressão da atividade anímica a um estágio anterior, que não nos surpreendemos em encontrar nos selvagens e nas crianças. “ Freud, 1921

Ou seja, estar em uma situação onde os sujeitos se identificam com um mesmo objeto pode despertar o que há de mais primitivo nos seres humanos.

Será que este texto pode ser aplicado nos dias atuais?

Me conta o que você achou do filme é quais outras discussões podem ser levantadas.

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