Neste texto de 1930, Freud se apropria da Sociologia para discutir a própria prática da psicanálise, se baseando nos conceitos trazidos da filosofia e abordando assuntos relevantes para a construção de uma sociedade, como a religião. As discussões deste texto conversam de maneira brilhante com a realidade atual.
O tema central do trabalho do autor é a batalha traçada entre as exigências das pulsões e as proibições impostas pelas civilizações, causa de sofrimento e mal-estar nos seres humanos. Com isso, o ele passa a desenvolver reflexões sobre o sentimento de culpa, que para ele é o núcleo da relação do sujeito com sua cultura, a partir do conceito de superego e sua origem, que vem das primeiras relações objetais. Fala também da civilização como mediadora das energias pulsionais com o objetivo de encontrar uma saída mais aceitável para a dupla prazer / desprazer.
Freud começa buscando a origem da necessidade humana de se conectar a uma religião. Partindo desta reflexão ele define o ego como “algo autônomo e autoritário, distintamente demarcado de tudo o mais” (1930). Ou seja, geralmente a fronteira entre o ego e o mundo externo está muito bem delimitada, característica que se perde por exemplo quando o sujeito se encontra apaixonado e não consegue fazer uma distinção entre si e seu objeto desejante. Essa fronteira vai sendo construída ao longo do desenvolvimento do ser humano. Em seus primeiros anos de vida, a criança não tem a percepção da diferença entre ela e o mundo externo. Depois ela vai se dando conta de que alguns estímulos vêm de seus próprios órgãos, mas outros vêm de fonte exterior ao seu corpo, como o seio materno por exemplo. Quando seu objeto se afasta dela, a criança experimenta sensações de desprazer. Portanto, a criança passa a ser regida pelo princípio do prazer, a fim de evitar qualquer fonte de desprazer e sofrimento.
Evitar o desprazer em busca de uma felicidade permanente também possui um lado negativo. A busca pela felicidade eterna está carimbada nos dias de hoje, onde o prazer imediato que causa a compra de um celular novo ou a quantidade de likes que se obtém em uma foto postada nas redes sociais faz com que cada vez mais as pessoas busquem a satisfação imediata. “O próprio princípio do prazer, sob a influência do mundo externo, se transformou no mais modesto princípio da realidade” (1930). Esta busca pelo prazer entra em conflito com as “regras” do mundo externo, que se tornam ameaçadoras. A introjeção desta diferença entre o que vem do ego e o que vem do mundo externo dá a base para o comando do princípio da realidade, que deverá prevalecer dali para frente.
Para que possamos enfrentar as dificuldades da vida, o autor propõe três saídas: derivativos poderosos como a atividade científica; satisfações substitutivas como as artes que proporcionam um contraste com a realidade e substâncias tóxicas, que alteram nossa química corporal e nos tornam insensíveis ao sofrimento. Na atualidade, o sujeito completamente desamparado busca conter o seu mal-estar por meio de ansiolíticos, antidepressivos ou do uso de outras drogas. Desta forma, muitas pessoas preferem se intoxicar para não falar sobre seus sentimentos, preferindo o silêncio que advém do isolamento à linguagem e gerando angústia. Afinal, é através da sua inserção na linguagem que o sujeito pode pensar no seu desamparo. É só de um lugar já inserido no campo da representação que podemos tratar a ausência do objeto desejado.
Este sofrimento tem origem em também três fontes: o adoecimento / envelhecimento dos nossos corpos, o mundo externo e a inadequação das regulações que ajustam as relações humanas. Freud também menciona a sublimação das pulsões, que coloca em destaque como um método com diferentes qualidades metapsicológicas que não é acessível a todas as pessoas e é falho quando a fonte de sofrimento vem do próprio corpo, do trabalho, das fantasias, da remodelação delirante da realidade, do amor que também destaca como um dos fundamentos da sociedade, apesar da ambiguidade da sua relação com a civilização; e do sintoma neurótico. Estes seriam substitutos para os desejos não realizados.
Ser feliz da maneira como nos impõe o princípio do prazer é impossível, mas não podemos abandonar nossos esforços de alcançá-lo, segundo o autor “a felicidade, no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível, constitui um problema da libido do indivíduo” (1930). A civilização tem como tarefa evitar o sofrimento e oferecer segurança, colocando o prazer em segundo plano. Em função do fato da satisfação pulsional ser sempre parcial, as possibilidades de felicidade tornam-se restritas. O princípio do prazer ajuda o princípio da realidade no sentido de lidar com essa dicotomia. O princípio da realidade modera ao mesmo tempo a insatisfação e a satisfação, buscando chegar a uma ação possível. No entanto, sua ação nunca é totalmente satisfatória, exigindo uma constante batalha de energias psíquicas. As consequências caem sobre dois lados do ser humano: sua sexualidade e sua agressividade.
A cultura enquanto mediadora simbólica, configura o problema que não pode ser superado, mas para o qual ela é constantemente convocada a apresentar respostas, que são sempre insuficientes e provisórias. Portanto, estabelecer normas permissivas ou proibitivas configura uma tentativa da cultura de dar contorno ao mal-estar estrutural que a caracteriza. Para que a civilização possa se desenvolver, o homem tem que se sujeitar a renúncia da satisfação pulsional.
Ao falar sobre agressividade, Freud traz que, como não pode ser externalizada, ela é introjetada e se dirige ao ego, fazendo com que uma parte deste se volte contra ele próprio na forma de superego. Atualmente, essa agressividade pode ser vista nos momentos em que a humanidade se mostra da maneira mais primitiva e bárbara, na banalização da violência em práticas como o terrorismo, o sequestro, o extermínio e a discriminação de determinados grupos considerados estranhos ou diferentes. Freud nomeia essa tensão entre e superego como sentimento de culpa, que demanda uma necessidade de punição. Para ele, são duas as origens deste sentimento: o medo de uma entidade superior e o medo do próprio superego. No primeiro caso, a sublimação dos desejos pulsionais já seriam suficientes para aplacar este sentimento; porém, no segundo não, pois já que o desejo se mantém, a culpa também.
A civilização só alcança o objetivo de conectar os seres humanos através de um crescente fortalecimento do sentimento de culpa, desenvolvendo um superego cuja influência produz a evolução cultural. A psicanálise se apresenta como uma forma de dar voz a esses sofrimentos e trazendo a luz a subjetividade de cada um.
Fonte: Texto Mal-Estar na Civilização
Autor: Sigmund Freud
Ano: 1930
Autor: Sigmund Freud
Ano: 1930




Comentários
Postar um comentário