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Vamos Falar Sobre Luto? Parte II



O luto além da morte.

    Quando falamos em luto imediatamente nos remetemos ao falecimento de alguém querido. Mas na verdade ele existe em todas as etapas da vida e não está necessariamente ligado a morte. Você deve estar se perguntando agora: “Mas como assim?!”. Pois bem, se ajeite na cadeira que já vou explicar. Acredite: este processo é mais simples, (e mais comum), do que parece.

    Primeiro é importante lembrar o significado de luto, que segundo o dicionário é: “sentimento de tristeza profunda pela morte de alguém” ou, em uma definição secundária, “originado por outras causas; amargura, desgosto”. Neste sentido, podemos dizer que o luto está diretamente ligado não só a perda de um ente querido, mas também, a todos os estágios da vida em que sentimos dor, angústia ou pesar ao encerrar ciclos. Mas como isso acontece? 

    Para iniciar a exemplificação, voltaremos um pouco a primeira infância, quando o bebê, vinculado a mãe, (objeto de desejo que simboliza a figura de troca de afeto e segurança), entra na fase da retirada da amamentação. Perceba que enquanto é amamentado, a mãe é o símbolo de sua segurança, do amor. É a pessoa que satisfaz as suas necessidades primárias e o seio materno passa a ser o objeto que materializa esses sentimentos. Uma vez que se inicia a retirada do seio, as suas frustrações começam vir à tona e a insegurança passa a estar presente. O bebê tenta se adaptar em um mundo ainda novo e sem o objeto que lhe trazia conforto, (o seio). Da mesma forma, a mãe vai se reorganizando entre o alívio do desmame e o “cair a ficha” que seu bebê cresceu e agora não precisa apenas dela para se alimentar, afinal amamentar era seu trunfo, mas a partir desse momento qualquer um poderá estabelecer um vínculo que antes era só dela. Aí inicia-se o processo de luto para ambos: de um lado, o bebê precisa se reorganizar sem o seio da mãe e superar essa perda, que antes era essencial para se sentir seguro; do outro, a mãe tem que se adaptar as novas necessidades do bebê ao mesmo tempo que vive a melancolia de não ser mais objeto único de desejo.

    Partindo, então, da premissa que o luto está intimamente ligado a perda significativa de algo e não necessariamente com a morte, estendemos o exemplo para as etapas de nossas vidas, (a mudança da fase infantil para a adolescência, da adolescência para a vida adulta, da vida adulta para velhice). E em cada uma dessas fases estão configuradas muitos outros processos de enlutamento, inseridos em uma mudança de escola, na separação dos pais, na mudança de um trabalho ou de um estilo de vida, no fim de um relacionamento entre tantas outras coisas. Já parou para pensar que cada finalização dessas é um processo difícil e doloroso, causando angústias e dor?

    Perceba então que o luto é todo processo que está relacionado a perda de algo ou alguém, trazendo dor, angústia e sofrimento. Mas ele também está presente quando, por vontade própria, damos um ponto final a algo que não se encerra por si só, e as consequências da nossa decisão desencadeiam o luto. Um exemplo disso é o ato de decidir dar “um tempo” na profissão para viver a maternidade, (neste caso, por mais que seja uma escolha, existem perdas inerentes a vida profissional que se abriu mão e que por sua vez causam sofrimento). Independente de qual luto o indivíduo esteja vivendo ele precisa ser elaborado para que o enlutado possa se reconfigurar diante da nova situação. E este processo só se finaliza quando o indivíduo consegue encerrar o ciclo e se permite iniciar outro. E por mais estranho que possa parecer, aquilo que aprendemos na escola sobre o desenvolvimento humano, (nasce, cresce, reproduz e morre), cabe nas alternâncias das diversas fases pelas quais  passamos: iniciamos ciclos, nos organizamos para sobreviver a eles, vivemos ele e o encerramos. Simples assim: Esse é o ciclo da vida!


Quer saber mais? Deixe suas dúvidas nos comentários!

Aqui também falamos de luto: Vamos falar de luto - Parte I

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