Enfim o sonho de ser mãe está prestes a se tornar realidade. A
maternidade está latente, a gestação foi perfeita e o filho mais do que
desejado. Impossível existir algum sentimento negativo diante de tanto amor,
correto? Errado. Acredite, muitas mulheres não sentem a magnitude deste momento
durante o puerpério, mas poucas possuem a coragem de externalizar seus
sentimentos, pois crescemos ouvindo as maravilhas da maternidade, da magia de
ser mãe, e, de repente, dizer que não se sente desta forma, é como se ela se
tornasse um alienígena perante a sociedade. Mas saibam, que existem muito mais “seres
de outros planetas” do que você possa imaginar. Primeiramente, para deixar
claro, o que estamos falando aqui não se trata de depressão pós-parto e sim de
um processo de enlutamento. Quer entender como funciona? Vamos lá!
O puerpério são os primeiros meses pós-parto que podem se
estender por até dois anos. É nessa fase que podemos dizer que o luto pode ser
instalado e elaborado. Você deve estar se perguntando: mas como assim? A mulher
se tornou mãe e pode estar em luto? Será mesmo possível. A resposta é: sim! E é
muito mais normal do que se imagina!
Quando a mulher se torna mãe automaticamente entram em cena
várias questões: a falta de participação do companheiro, (ou a participação
aquém do desejado), o replanejamento da carreira ou a frustração por não estar inserida
nos momentos cruciais da empresa, a insatisfação com corpo, o desgaste
emocional e físico decorrente da dedicação integral ao seu filho, (que acaba gerando
um esgotamento maior do que imaginava), a falta de desejo sexual ou, ainda, a
percepção de diminuição do desejo do parceiro, trazendo insegurança e, por
vezes, diminuindo sua autoestima.
São várias perdas que a mulher vive neste período e ela precisa
se adaptar e se ressignificar nessa nova fase. É o encerramento de um ciclo e o
início de outro de uma forma abrupta. Agora ela não pode ser só mulher. Ela
precisa ser mãe. Mais do que isso: ela precisa ser mãe sem anular a mulher. E
isso embora possa parecer fácil é, na verdade, desafiador. Cuidar da casa,
cuidar do filho, cuidar da carreira, cuidar de si, cuidar do seu relacionamento
em um momento em que tudo é diferente. Sua rotina é outra, as horas de sono são
menores, seu investimento emocional é maior, sua insegurança sobre todas as
coisas borbulha sem mesmo entender direito o porquê. Não existe mais a
possibilidade de frequentar a academia na hora que quiser, porque agora ela nem
sabe se conseguirá ir; se antes ela não se importar com as horas extras
realizadas no trabalho, agora isso é diferente, pois precisa pegar o bebê na
creche ou chegar em casa para render a babá; não existe aquela noite romântica com
seu companheiro, se não tiver quem fique com seu filho; Não tem como comer
qualquer coisa, dormir até a hora que quiser, pois existe alguém que depende
integralmente dela. E isso é assustador. A maternidade traz consigo a perda de
autonomia total sobre sua vida. Pelo menos até determinado ponto.
Mas o importante é saber que isso passa. Como qualquer tipo de
luto, ele precisa de tempo para ser elaborado. É fundamental para quem convive
com alguém nesta fase, acolher as angústias e entender que além de todo
processo de se reorganizar em um novo cenário, de elaborar as perdas da vida
anterior a maternidade, existe questões hormonais que influenciam diretamente no
seu emocional. Por outro lado, a nova mãe deve entender que isso é um período
necessário para sua reconstrução e que todos os sentimentos que eclodem são
normais e, mais ainda, que este momento é crucial para a transformação de sua
identidade.

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