De repente nos vimos em um cenário que só imaginávamos nas produções de Hollywood. Quem diria que a essa altura da vida, das inovações tecnológicas e avanços da medicina iríamos vivenciar esses dias de Pandemia? E quem poderia imaginar que aquela quarentena com previsão de duração de quinze dias perduraria muito mais, indo em rumo aos cinco meses de confinamento?
Mas aqui estamos no meio de uma insana realidade que mexeu, (e
ainda mexe), com o psicológico de todos. Uns mais, outros menos, mas todos
foram acometidos por esse mal, direta ou indiretamente, o que nos leva a falar
que o isolamento social gerou sim, em boa parte da população, um processo de
luto. Quer entender? Eu explico.
O Covid-19 se espalhou pelo mundo com uma velocidade sobrenatural
e tivemos que nos adaptar a um novo contexto de forma tão rápida quanto as destruições
trazidas pelo vírus. Instabilidade financeira, medo de contágio da doença,
receio em perder o emprego, o aprisionamento e para muitos o convívio da dor
pela morte de parentes ou amigos. Tudo isso de uma só vez e de forma abrupta,
sem dar muito tempo para pensar ou processar o “cair da ficha”. Em um momento
tínhamos uma rotina: levar e pegar filhos na escola, ir ao trabalho, levar os
filhos no cinema, fazer academia, reunir com amigos na sexta-feira à noite,
renovar as energias na praia aos finais de semana, assistir ao show tão
esperado. De repente a nossa rotina se resumiu a lavar as mãos repetidas vezes
e assistir o jornal em busca de uma notícia de dias melhores. Não há mais troca
de abraço, não há o calor de um colo, nem o brinde acompanhado de boas risadas.
Nossa vida se resumiu ao mundo virtual: lives, abraços e encontros virtuais,
trabalho em home office, ensino à distância. E coitado de quem teme a Pandemia,
mas não tem acesso à tecnologia.
Nesse sentido, o luto se estabelece pelo estado de desamparo em
função do sentimento de perda de uma vida que tínhamos e que não sabemos quando
irá voltar ao normal, (e se irá voltar), se mantém nas resistências em nos adaptar
a nova realidade e de aceitar que, talvez, quando tudo passar, nada seja como
antes. A verdade é que um ciclo teve que ser iniciado sem ao menos entendermos
que um outro se encerrou. Apenas quando aceitarmos essa nova condição de vida,
quando nos ressignificarmos diante de uma época que ficará na história, conseguiremos
fluir efetivamente com nossas vidas.

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