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Coisa Mais Linda

A Netflix, com o seu maravilhoso catálogo, está sempre fornecendo materiais interessantes para as nossas discussões, como já tratamos aqui e aqui.

Hoje falaremos sobre a série Coisa Mais Linda. A segunda temporada estreou recentemente e mais uma vez tem como tema principal o papel da mulher na sociedade carioca no final dos anos de 1950 e início de 1960.

Através das histórias das personagens principais, temas importantes para o movimento feminista são discutidos, como: machismo, o papel da mulher no mercado de trabalho, violência doméstica, aborto, racismo, preconceito de classes sociais, liberdade sexual feminina, entre outros. Por isso, decidimos falar sobre cada uma delas e apontar quais temas são abordados.



Começaremos por Malu (Maria Casadeval), paulista, de classe média alta, casada, vem para o Rio de Janeiro para encontrar o marido já que os dois planejam abrir um restaurante na cidade. Ao chegar, descobre que ele foi embora e lhe deu um golpe, levando todo o dinheiro do casal (não é spoiler, esta cena acontece logo nos primeiros minutos da série). A partir daí a personagem se mostra uma mulher forte e determinada que, apesar que nunca ter trabalhado, decide tocar o negócio sozinha e abrir uma casa  dedicada à música. Malu  se depara com o machismo muitas vezes por conta desta decisão, além de enfrentar o velho dilema de como conseguir conciliar vida pessoal, maternidade e carreira.



Lígia (Fernanda Vasconcellos) é amiga de Malu desde a adolescência e, quando a conhecemos, somos apresentados à esposa perfeita, casada com um político influente. O arco desta personagem passa pelo clássico do relacionamento perfeito perante a sociedade, porém abusivo dentro de casa. A violência doméstica é representada aqui de forma bastante explícita, causando angústia no espectador. Porém a série também mostra como esta violência era normalizada naquela sociedade e como as atitudes do agressor são justificadas como se fosse induzido pelo comportamento feminino.

A série traz alguns flashbacks das duas personagens jovens e é interessante observar como os seus comportamentos eram invertidos. Malu era insegura e recatada e Lígia tinha uma personalidade mais livre, até sonhava em ser cantora. Então podemos ver o quanto vamos recalcando os nossos desejos perante a inscrição do desejo do Outro (representado aqui pela sociedade patriarcal). Principalmente sob a ótica da Lígia, que reprime seu desejo a ponto de se tornar a esposa perfeita, bela, recatada e do lar.

Já o enredo de Adélia (Pathy Dejesus), mulher preta, favelada, empregada doméstica e mãe solo, traz logo de cara a diferença feminismo negro x feminismo branco. E a série faz um ótimo recorte ao pontuar essas duas realidades bem distintas de Adélia e Malu.



Obviamente, o racismo e o preconceito social também são representados. Mesmo após se tornar sócia de Malu, Adélia continua a ser vista por muitos como sua empregada, não como a dona do negócio. Porém, a relação que as duas constroem com uma aprendendo sobre as vivências da outra é muito bonito de se ver.



Passamos agora a falar sobre Theresa. Jornalista, trabalha escrevendo uma coluna para revista feminina, apesar de ser a única mulher na redação. Sua personagem fala muito sobre o papel da mulher no mundo corporativo e as dificuldades que enfrenta para conquistar seu espaço e respeito no ambiente de trabalho. Além disso, apesar de ter um casamento liberal e exercer a sua sexualidade de maneira livre, também sofre a pressão de conciliar vida pessoal e carreira.



Finalmente temos Ivone (Larissa Nunes), que é guiada por sua irmã Adélia a estudar e se mostrar sempre uma pessoa competente. Por isso, Ivone também reprime seu desejo de ser cantora para tentar ter um futuro melhor através dos estudos. Novamente o racismo é posto em pauta.



Então,  o que une estas mulheres tão diferentes? A amizade! Apesar das diferenças, elas se unem e dão suporte umas às outras, e é isso que chamamos de sororidade. Todas elas passam por situações parecidas e compartilham o sofrimento em ser mulher nesta sociedade. Isso faz com que o espectador também se identifique e as mulheres se sintam representadas por estas personagens tão fortes. Porque, apesar de ter passado mais de 60 anos da época retratada pela série, ainda estamos discutindo as mesmas pautas. Muitas coisas já foram conquistadas, mais ainda há um longo caminho a percorrer nesse sentido.

Fotos: @girlsipanema
            @coisamlinda
            @seriesemovies_
            @umfilmedisse

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